domingo, 21 de março de 2010

& DARLING










you held my hand. arousal
you held so strong you got my bones
you held my hand as a prayer
your hand was asking me something

& darling, my hand said yes.

quarta-feira, 17 de março de 2010

DOS DIAS QUENTES



Era assim: minha hora preferida do dia tinha se tornado justamente a hora de ir ao colégio porque, encostado na placa, eu espiava o início da avenida, ansiando não a chegada de um ônibus, mas a de uma bicicleta amarela com cara de tesouro-de-brechó, passeando devagar pelos carros acordados, colorindo por onde passava ao passo que ia abrindo meus olhos antes pregados de sono, agora brilhantes vivos; ia acendendo meu corpo; ia me dando bom dia; ia afastando o frio; ia... ia... ia... Contudo, a bicicleta, em si, pouco me interessava. O que me cativava era seu condutor de barba rala, de olhos boêmios, de roupas amassadas. Um par de classic reeboks coloridos, um jeito meio Vênus meio Marte, uma beleza maldosa, arisca, castelhana, parecia que tinha saído de um filme de Pedro Almodóvar.

Era assim e só assim eu podia enfrentar mais uma manhã de pré-vestibulando fodido, num dia frio e cansado e opaco e triste como todos os outros dias de junho, de julho, de agosto. Era assim que eu ia sorrir pelo menos por breves momentos na sala de aula, na mesa de estudos, no curso, na academia, no inglês.

E será que ele gosta de meninos? – ficava me perguntando horas, tentando me convencer de que ele era só mais um cara normal igual a todos os outros. Depois cedia, criava toda uma história pro cara, pensava que ele tinha um amor mal correspondido por outro ciclista, de vez em quando era pelo médico que cuidou do joelho dele uma vez que ele caiu da bicicleta e até mesmo pelo vendedor de correias... Claro que minha história favorita era aquela em que ele era louco pelo garoto magrela da parada na avenida principal. Me dava uma prazer enorme pensar que ele era gay, pensar que ele estava ao meu alcance. Mas ele não parecia ser. Mesmo assim, eu me prendia a sua bicicleta amarela e ao tênis colorido – classic reebok, tinha que ser importado.

Veja bem, não é à toa que descrevo esta memória infantil. Ela pode ter uma moral, ou sei lá como se chama coisas assim. O fato é que, certo dia, mais um dia qualquer, ele cruzou a avenida e, dessa vez, tudo ficou claro, quente, feliz, euforia pra durar uma semana: ele passara sorrindo pra mim.

sexta-feira, 5 de março de 2010

SONETO DO FIM DO MUNDO


Beleza perene no jeito de andar
adolescidos pés em sapatos laçados
por ela, o varão não veio ao jantar

tantos erros e corações desalmados
destruídos no fogo a crepitar
é o fim do bordel, dos trabalhos ousados

E quem sabe se o destino nos escolherá?
há caminhos com arames farpados!
"Senhor, perdão pelos meus pecados,
prometo, pela vida eterna, nunca mais pecar"

a questão é: viemos de lá
de forros rasgados
viemos de lá.